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Entrevista ao autor do livro «Cem Letras Para Fado - Fado Tradicional: De “Adelino” a “Zé Negro"» Jorge JC Campos

Entrevista ao autor do livro «Cem Letras Para Fado - Fado Tradicional: De “Adelino” a “Zé Negro"» Jorge JC Campos

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Capa do livro

 

Na sequência do lançamento do «Cem Letras Para Fado», o segundo livro da coleção IDAS, GAGICRC Media Press, livro resultante de um trabalho de investigação dedicado ao Fado Tradicional: De “Adelino” a “Zé Negro” por parte do autor, cujo o conceito baseia-se em letras com a métrica adequada ou escolher e adaptar a outro instrumental em direto, julgou-se oportuno a realização de uma entrevista por Fernando Teodósio.

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O autor e o entrevistador

 

Qual o público-alvo que é dirigido o livro?
Ao fadista amador, ao do fado vadio, ao fadista profissional e ao publico em geral.

Quais são os objetivos do livro?
Divulgar letras originais com a métrica exata a corresponder ao instrumental de fado que o fadista escolher.

Em detalhe e com o máximo rigor qual é a metodologia do livro?
O cliente, de livro na mão, escolhe uma letra que goste ou então pela música de fado. Canta diretamente, pois a métrica é a adequada. No entanto, eu, presencialmente, acrescento ou retiro o número de silabas que o fadista necessitar, de forma a que se sinta confortável a cantar. Se preferir outro instrumental de fado para a letra que ele escolheu, então eu construa a métrica na hora, presencialmente, e o fadista canta logo na hora à capela. E logo acerto o número de sílabas.

Como é que teve a ideia para escrever este livro e esta metodologia?
Porque, presencialmente, nas sessões de fado, senti que cada fadista podia ter a letra da sua vida, que descrevesse a sua vida, ou a letra que gostasse para cantar com o instrumental que mais adorasse.

Quais os problemas que este livro resolve?
O de qualquer pessoa poder ter uma letra dedicada a si ou a quem mais queira dedicar, até com a sua intervenção, conjunta, com o letrista.

Este livro é útil para quê ou serve para quê?
Contribui para a divulgação de novos Autores/ Letristas, e para maior diversidade na arte do Fado.

Conhece alguma metodologia ou livro que se assemelhe a este?
Existem vários sites de fado, em que divulgam as letras, as músicas com os respetivos autores mencionados, o fadista que celebrizou esse fado. Só pretendo divulgar mais letras originais, de minha autoria adaptadas aos instrumentais que os fadistas escolherem. Informando dos autores das músicas.

Qual a diferença entre esta metodologia e poesia comum?
Aqui tenho de obedecer à métrica que o fadista necessita para cantar confortavelmente e não obedecer a rimas e poemas com quadras, tercetos, quintetos, decassílabos, por exemplo. Tenho que contar histórias que o fadista goste.

Quais os fundamentos musicais utilizados?
Os já existentes. Limitando-me a substituir a letra aos instrumentais de fado tradicional já existentes e registados.

Porquê o Fado? Contextualize a sua vida, os locais, a história, a cultura, a sociedade com o Fado, com a metodologia, com o livro... (pode ser extenso)...
Em termos de criação do meu próprio negócio devo seguir as tendências. O que está na moda é o fado, foi recentemente consagrado como Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO, por ser acessível a todos sem que se torne demasiadamente oneroso. Desde muito novo, habituei-me a assistir a espetáculos de Fado Vadio, primeiro na tasca do meu pai em Espinho, e depois na minha atividade de empregado de mesa. Porque o fado relata a História e a história de cada um ou acontecimento. Os fadistas, só muito posteriormente ao aparecimento do fado em Portugal, Lisboa, é que começaram a ser melhor vistos pela sociedade. Ao início eram um pouco camuflados e não muito bem vistos pela de então. Através do “Cem Letras Para Fado Tradicional” pretendo, também, trazer uma linguagem mais moderna e acessível a todos, não descurando também os assuntos intemporais.

Esta metodologia dá apenas para Fado ou dá para outros géneros musicais?
O fado está na moda, mas, facilmente posso compor para todos os géneros musicais quer através da composição de letras de raiz ou inclusivamente no desdobramento das que já tenho escritas para este livro.

Esta metodologia dá para todo o tipo de Fado ou apenas para Fado Tradicional?
Como atrás descrevi, aqui o processo é o mesmo. É a métrica adequada que atinjo.

Que pesquisa foi feita ou onde foi feita a pesquisa para os chegar aos cem instrumentais diferentes de Fado Tradicional?
Nos sites de Fado Tradicional fiáveis. É escutar o instrumental umas vezes e depois decidir o tema que pretendo. No entanto, como já referi, tudo pode mudar para o gosto expresso pelo cliente.

Qual foi o interesse de reunir estes instrumentais todos de Fado Tradicional, alguns deles já esquecidos. Existe algum estudo sobre isso? Existem muitas pessoas que reconhecem as diferenças?
Existem vários tipos de informação. Alguns até de caráter histórico, como a divulgação de fados antigos numa plataforma digital do Museu do Fado, a que se pode aceder facilmente. Existem sites de fado, uns com mais e melhor informação que outros. Mas basicamente o que o cliente pretende é cantar aquele fado cantado por... Em muitos casos não se informa quem são os autores quer da letra, quer da música. Pelo que já vi, raros destes instrumentais são totalmente esquecidos.

Qual o interesse sociocultural do livro?
Promover a cultura, a língua portuguesa junto dos portugueses espalhados pelo mundo e daqueles que não o sendo se interessem pela nossa língua. Especialmente aos países de Língua Oficial Portuguesa. Promover o gosto pela leitura e a interatividade, neste caso com o letrista.

Fala-se no "conceito" do livro aplicado ao livro sob a forma de uma metodologia. Explique o "conceito".
Ao criar o livro Cem Letras Para Fado Tradicional, tive também como objetivo que servisse como um manual para os meus novos projetos que hão de vir quer na área da escrita de letras para canções ou até na área de poesia ou prosa. Neste livro tenho muitos conceitos que irei aproveitar para projetos futuros.

Detalhe a metodologia a nível técnico o máximo que conseguir?
A partir do livro Cem Letras Para Fado Tradicional, posso partir para outros projetos, como por exemplo: simplesmente adaptando as letras para sonetos, poemas, prosa, contos, estórias, etc. É simples: Todos nós somos na realidade um pouco de "plagiadores" pois utilizamos as palavras que os outros inventaram. Todos nós sabemos que temos que obedecer a certas regras como por exemplo rimas nas quadras, quintetos, decassílabos, etc. A novidade e a mais fácil para mim é ordenar as palavras de forma diferente e original, com o número de sílabas quer sejam gramaticais ou poéticas que se adaptam ao tema que estou a escrever. Tendo também em conta a expressão oral e o ritmo da música quando me dirijo a cantores. Quando dizem os meus poemas, não os adapto. É uma questão de qualidade do declamador.

Existem metodologias semelhantes? O que esta metodologia faz que as outras não façam? No caso desta metodologia ser inovadora e precursora, qual a sua utilidade prática para os potenciais interessados.
Através da leitura deste artigo, da leitura e interpretação do Cem Letras Para Fado Tradicional e ainda com a possibilidade de facilmente poderem entrar em contato comigo, quer pessoal quer por intermédio de plataformas digitais, com certeza que ficarão com mais alguma base para construir por si próprios os seus projetos. Inovando ainda mais, pretendo eu.

A metodologia tem elementos multidisciplinares? Quais?
É uma questão de pensarmos que queremos fazer do que gostamos e que dizem que temos jeito, Profissão. Ainda que seja a segunda profissão. No meu caso basta em me transformar em Jorge JC Campos, personagem, portanto, e junto as palavras da forma que o meu cliente gosta. Qualquer profissão individual tem que ser assim.

Diga toda a bibliografia que alguém que queira aprofundar os conhecimentos sobre todo este tema do fado, géneros do fado tradicional, multidisciplinaridade da metodologia, conceitos musicais, conceitos de escrita criativa e partitura musical...
Eu, no meu caso, e para este projeto do livro de letras para fado tradicional, apenas precisei de consultar factos registados: os Autores das músicas. Mas hoje tudo o que se relaciona com o fado está acessível na internet. Infelizmente o livro físico sobre fado e outros temas relacionados, só em certas livrarias. Comecem por ir pessoalmente ao Museu do Fado em Lisboa. De lá sairão certamente informados do que a cada um interessa consultar.

Que experiências foram feitas para verificar que a metodologia funciona?
Ao vivo com diversos fadistas e até com não fadistas como o caso do professor Fernando Teodósio. O professor em menos de 1 min. uma letra a que estava a ver pela primeira vez, cantou. Verdade? Para um fadista é simples. Ele pede o instrumental que gosta e se gostar da letra canta imediatamente. Até sem ensaios.

Quais os nichos do público-alvo que utilizariam esta metodologia?
Os criadores, os argumentistas, etc. Na essência, o meu método pode servir com alguns tópicos para a criação do método de cada um.

Porquê que as letras não são vendidas em vez de constarem num livro? Porquê a utilização do livro?
No meu caso, com o meu método de trabalho consigo desdobrar qualquer letra do meu livro e vendê-la pessoalmente. Ex. Quando adapto uma letra o outro instrumental a outro instrumental de fado ou de outro género musical. Isso é único, intransmissível e pagável.

Que experiências pretende fazer para aplicar a metodologia? Ir a casas de fado... lançar álbuns ... contactos socioculturais... etc....?!
Todos estes tipos de eventos acima perguntados são fundamentais e serão para frequentar/ utilizar. Duas bases no meu trabalho: Ao vivo e pelas plataformas digitais e Telemóvel.

É possível desenhar um ou mais esquemas (desenho, esboço, arquitetura) a representar a metodologia de alguma forma?
Sim. Os quadros a óleo por exemplo, são peças que colocadas por sequencias diferentes podem transmitir outras visões. Os quadros são as palavras.

Existem fotografias que representam as ações, experiências, contexto, aplicabilidade de experiências e execução da metodologia?
Facilmente se podem fazer. Temos como exemplo quando o professor Fernando Teodósio esteve com o letrista, ao vivo, em direto, no computador e cantou. Tirava-se fotos.

Existem outro tipo de elemento de prova da aplicabilidade da metodologia? A mostrar a metodologia a ser aplicada, e a provar que funciona? Se não existe, o que poderia ser feito no futuro a este nível?
A prova é o cliente estar em direto comigo. E não há outra prova melhor. Outra prova o cliente encomenda-me a letra com instrumental que quer e tem letra completa quando gostar e pagar e aí nem precisa de ser em direto nem ao vivo. Pelas plataformas.

É possível criar uma matriz, arcabouço, estrutura, modelo, que permita qualquer pessoa utilizar esta metodologia? Ou apenas o seu autor consegue utilizar a metodologia? Se for possível utilizar um modelo, detalhe o modelo, de preferência com um esquema.
É possível qualquer um criar a sua metodologia. É importante no começo procurar gente que saiba das outras áreas, como por exemplo a impressão do livro e tudo e todos que o envolvem. Jamais chegaria a lançar o meu projeto sem essa ajuda. Mesmo o trabalho individual tem que ter por trás uma equipa, mas, quantos menos melhor. Só os que sabem.

Que equipamento é preciso para aplicar a metodologia para cada contexto (estúdio, casa de fado, rua, casa, etc.).
Onde, quando e como o cliente se sentir mais confortável. Um computador e um telemóvel com internet é o suficiente. Neles temos que ter os nossos métodos organizados de forma a mostrar rapidamente ao cliente. O fadista é por norma um apaixonado pelo fado e pela ideia que tem. Temos que ser rápidos e seguros na satisfação da sua “doença”, na maior parte dos fadistas que conheci.

Quais as conclusões ponto-por-ponto do trabalho todo que foi feito até aqui?
A principal conclusão foi a evolução que fiz na área da escrita.
- Comecei por escrever contos como o Pretinho, o cãozinho Fórrócócó, contos infantis com muita imaginação, mas, muito mal escritos,
- Continuei com o Contos e Estórias do Manel Jardineiro, ainda mal escrito,
- O Não era bem assim, idem;
- Comecei a ter mais atenção e a utilizar melhor a pontuação quando passei para os poemas.
- A utilizar o número de sílabas necessárias a cada letra para canção
- A reparar e a apreender cada vez mais a partir de que surgiu a oportunidade de fazer o livro Cem Letras Para Fado Tradicional.
- Ser exigente comigo próprio e com as pessoas com quem me relaciono agora e que contribuem para a execução dos projetos. São projetos conjuntos, portanto, o melhor de todos e eu aprendo. Naturalmente.

O que falta fazer? Quais os trabalhos futuros? Depois disto o que faz sentido fazer?
Todos os projetos que enumerei na questão anterior com incidência no último tópico da mesma.

 

Entrevistador: Fernando Teodósio

 

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Jorge JC Campos